sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Sagu como impermeabilizante (biodegradável)

(OBS: no final da página tem o ícone com a licença CC que protege a informação aqui contida. A licença abrange o texto, não as fotos que usei como exemplos  - os sites de origem das fotos estão indicados com link. Já as primeiras fotos com sagu são de minha autoria)

A ideia surgiu quando tentei coar o sagu, foi então que percebi o potencial impermeabilizante desse ingrediente culinário. 

Primeiro fiz furos que julguei bem grandes numa tampa de requeijão

 Na parte do copo, coloquei o sagu e adicionei água 
(OBS: note que a base do copo é menor e portanto quando virado de ponta-cabeça a água ocupará uma porção menor da altura do copo)
Tampei e virei. Para minha surpresa, só a água que estava perto da tampa saiu, quando o sagu se depositou no fundo, ele vedou os buracos, mesmo que esses buracos fossem quase do tamanho da bolinha de sagu.
Então fiz outra experiência, para ver se a impermeabilidade do sagu é útil para fazer deslocar um líquido de um ponto A ao ponto B.
Note-se que o sagu é um material bem barato e basta cozinhar na água para ela ficar pronta.
Como o sagu é feito de amido, após alguns minutos cozinhando, podemos extrair da borda da panela uma espécie de "plástico" (existem pesquisas desenvolvendo plástico biodegradável a partir de amido)


A Experiência

Utilizamos um bolo para nossa experiência. O objetivo é que um líquido seja depositado no recipeinte plástico sem que o bolo tenha contato com esse líquido.
(podemos imaginar que a superfície do bolo é uma solo que não pode ser contaminado com o líquido)
Cava-se um sulco no bolo.
Nesse sulco depositamos sagu:
E então derramamos o líquido:
A experiência correu muito bem! O líquido percorreu o caminho e só sobraram resquícios do líquido (poças) onde havia irregularidade devido do formato das bolinhas de sagu.

Como podemos ver, o sagu isolou o líquido do bolo, se tivesse havido contato (como na cabeceira onde começamos a derramar), o bolo teria ficado manchado.
 

Potencialidades e fragilidades
  • é um material barato
  •  o transporte pode ser feito seco e preparado na hora com água (sendo que a água não precisa ser transportada se houver disponibilidade no local)
  •  se não há local para preparo ou não há água, pode-se levar já cozido e até mesmo diluído (diluir em água é bom para não formar uma bloco "sólido" - com bolinhas já tendo absorvido o líquido e grudadas umas nas outras). Como se viu na experiência com o copo, mesmo o sagu frio e misturado à água tem propriedade impermeabilizante quando se deposita no fundo.
  • não dura, muito, é biodegradável. Embora isso pareça uma fragilidade, é ao mesmo tempo uma vantagem, pois se é necessário transportar líquido, mas construir dutos de concreto ou colocar canos de metal ou PVC vai ter impacto ambiental negativo ou representa um gasto desnecessário já que esses materiais duram muito tempo e esse caminho será pouco usado, fazer um duto de material biodegradável pode ser uma saída mais adequada e barata.
  • a (bio)degradação pode ser controlada adicionando conservantes.
  • uma fragilidade é que as bolinhas de sagu têm risco de serem carregadas pelo líquido dependendo do tempo de escoamento, velocidade e força do líquido a ser escoado (e também viscosidade, etc). Quanto à isso é de se ressaltar que só usamos sagu puro, medidas de reforçar a estrutura podem ser adotadas.
Por exemplo, se há uma área de alagamento por causa de chuvas, é necessário canalizar a água da chuva para outra região, mas para isso deve-se cruzar uma área florestal que requer que haja menos impacto ambiental possível para essa operação de escoar a água. Só abrir uma vara talvez seja insuficiente e pode haver risco de molhar demais a floresta (ou seja, ao invés da água ir de ponta A até ponto B, ela vai se disperçando no caminho, sendo absorvida pelo solo). Nesse caso, pode ser que seja cuficiente uma camada de sagu reforçada com algo para evitar que  ela seja levada pela água (talvez uma camada de panos. Como o sagu cuidará da impermeabilidade, pode ser dispensável a utilização de quilometros de plástico/lona).
(foto: wikipédia)

Para soluções mais duráveis vamos às próximas seções:
 

Para reforçar a estrutura

O fato de conseguir uma impermeabilidade - mesmo que temporária - já é um grande feito. Pelos princípos das bioconstruções, você deve fazer uma coisa de cada vez para construir a estrutura como um todo.
(imagens extraídas de HowStuffWorks e Wikipedia)

Nesse sentido, a frágil superfície impermeável de sagu pode ser o 1° passo que será usado como suporte para as etapas seguintes.
(imagens de CasaTierra. Note que um material é usado de suporte para outro. Sobre o ferro se fixar cimento para fazer um reservatório de água. A parede já pronta é suporte para colocar mosaico.)

Sobre o sagu pode ser colocado outro material que dependa da impermeabilidade para ser moldada. Entre o sagu e esse novo material, pode ser usado algo para isolar a umidade que o sagu contém (algum pó que absorva líquido, esse pó pode inclusive ser uma farinha biodegradável).

Um dos grandes problemas da construção civil é usar materiais que garantam impermeabilidade mas ao mesmo tempo tenham rigidez, por isso são transportados tubos pre-moldados de concreto que são pesados e ocupam muito espaço (encarecendo seu transporte)
(imagens de SoluçõesParaCidades a galeria de imagens que mostra o passo-a-passo não está completa aqui)

Se podermos isolar a necessidade de impermeabilidade da necessidade de rigidez, pelo menos na questão do transporte pode representar uma grande economia, já que ao invés de transportar estruturas de concreto já prontas, poderíamos levar apenas os materiais para moldar no próprio local as estruturas, sem medo de falhar no quesito da impermeabilidade.

Moldar estruturas no próprio local de repente pode ser mais eficiente em termos de impermeabilidade que transportar esses grandes tubos. É de se lembrar que quanto à rigidez, os pesquisadores de bioconstruções dizem que o melhor é aproveitar o proprio material do local (o que também economiza transporte), e é por isso que as paredes de superadobre usam o proprio solo do terreno.

Então vamos focar na impermeabilidade que tenho certeza que para a questão da rigidez outras pessoas vão pensar numa alternativa  à instalação e aterro de tubos de concreto que vimos nas 6 fotos acima.

Como íamos dizendo, a partir a partir da camada de sagu (que pode ser coberto por um pó para isolar a umidade), podemos conseguir um molde para aplicar uma camada de outra coisa que também seja impermeável mas não biodegradável. Pode ser uma camada de cimento/concreto ou um outro material (de repente até plástico ou fibra de vidro, etc), que se fosse aplicado diretamente na terra, tanto haveria o risco de desperdício quanto de contaminar o solo desprotegido da camada de sagu.

Ou ainda, e se fosse usado um material que depois de seco se torna emborrachado e flexível? Para usar um material assim, é melhor que seja por cima de uma superfície impermeável para evitar desperdício e contaminação do solo.

Por exemplo, você não aplicaria um negócio desses no solo direto né? Mas em cima da de uma camada de sagu é se se pensar né? Especialmente quando você vê a parte aos 1:52 do vídeo (interação entre líquidos).
Então para concluir essa seção: a aplicação de uma camada de sagu (com ou sem conservantes, reforçada ou não com outros materiais, isolada ou não com pó,etc) permite a aplicação de outra substância por cima. O interessante é que permitira pensar em aplicar outras tecnologias, que mesmo que não chegue a algo tão revolucionário quanto o que é mostrado no vídeo, se for algo emborrachado e flexível já será um grande avanço pois pode ser mais adequado para acompanhar as dinâmicas de movimentação do solo. E mesmo se for usado um material tradicional como concreto/cimento, há economia/eficiência pois ela será aplicada sobre um suporte, ao invés de já chegar moldada e pronta (acarretando grandes despesas de transporte). Por ser biodegradável, o sagu será um suporte provisório para a fixação da substância definitiva.

E como já dissemos, estamos falando da parte de impermeabilidade, para a parte da necessidade de rigidez (que separamos), seria mais interessante pensar em soluções de bioconstrução que usam os próprios recursos da regição, ou, mesmo adotando os tradicionais tijolos, há economia pois são mais fáceis de transportar que os tubos de concreto.


Pensando em algo mais ecológico: formação de lodo e biodiversidade

Mas e se o fato do sagu ser biodegradável for explorado não como um suporte temporário para materiais não-biodegradáveis, mas como um preparador de terreno para biodiversidade?

Quando se fala em água, lembramos que há formação de lodo, que é formado por sujeira e microorganismos diversos. Talvez com uma seleção correta desses seres, seja possível formar um lodo impermeável que vai substituindo a camada de sagu

E podemos pensar além: pois atualmente se pensa até em cultivo de plantas no espaço:
(mais detalhes desse projeto no LikeCool)

E se essas coisas são plausíveis, porque não pensar em formar uma forma de formar uma biodiversidade selecionada?
Bom, eu vou ficar por aqui, devido ao fato do sagu ser degradável, não vou propor coisas mais ousadas como BET - Bacia de EvoTranspiração nem Fossa Biodigestora (ver mais aqui e aqui), seria ousadia demais, se é que já não ultrapassei minha cota de ousadia por hoje. Mas creio ser possível alcançar coisas im]ncríveis estudando as possibilidades de formar camadas de lodo impermeáveis (que vão digerindo e substituindo o sagu), misturar sagu a outras substâncias ou colocar na própria bolinha do sagu alguma outra substância ou cultura de microorganismos são possiblidades, etc.




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Licença Creative Commons
O trabalho Sagu como impermeabilizante de Célio Ishikawa está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.

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